Coerência


Foi anunciado que o Juízo Final seria no dia 21 de maio, último. Alguns levaram a sério, outros nem tanto. Afinal, muitos já tentaram bancar o profeta do fim dos tempos mundo afora - inclusive no Brasil - e se viram forçados depois a malabarismo maior para justificar o erro de cálculo, vindo a padecer no esquecimento. Não é preciso ser douto para saber que a mensagem profética que não se cumpre - e as temos aos montes - serve, quando muito, para revelar a vaidade ou presunção dos falsos mestres, independentemente das alegações que apresentem em sua torpe defesa, já que é irrelevante se o fazem ou não por nobres motivos. Na realidade, o seu maior valor está no estímulo ao exercício de uma medida saudável de ceticismo, bem nos moldes da tradição apostólica, que nos recomenda o exame de tudo, retendo o que é bom, além de que não acreditemos em qualquer um, mas que os examinemos para ver se eles, de fato, falam a verdade, porque convivemos também com manipuladores extremamente habilidosos. Estou ciente da importância de planejarmos o amanhã, nos preparando hoje para os desafios que provavelmente enfrentaremos, mas preciso reconhecer que não há virtude alguma na atitude que leva ao desprezo do presente, o único tempo que existe e que, por isso, admite a ação do indivíduo. Considerando que o dia de hoje esteve para o de ontem como o de amanhã está em relação ao agora, o ideal é que aproveitemos as lições que podem nos elevar, promovendo-nos e aos demais, pois se fecharmos com saldo positivo ele será, digamos, transportado ao novo dia, confirmando o ciclo de realizações. A boa notícia é que mesmo o saldo negativo pode ser suplantado, contanto que nos preparemos neste sentido. Devemos nos imunizar para a passagem ao largo desses movimentos que servem apenas à distração, privando suas vítimas de um de seus recursos mais preciosos: justamente, o tempo - às vezes, escasso. Embora não me pareça apropriada a defesa de um método em particular para a sintonia do ser com o que se costuma designar de fluxo da vida, vislumbro a importância de o indivíduo se valer do sistema com que mais se harmonize, percorrendo, naturalmente, o estudo, a reflexão, o trabalho e, por que não, a manifestação de seus ideais. Isto porque, se, por um lado, é louvável ou até necessário que caminhemos convictos, em regra, exalando entusiasmo, por outro, somente ações coesas são capazes de dar alguma segurança na produção dos resultados que almejamos. Parafraseando o sábio: há tempo para estudar, e ocasião oportuna para aplicar tais noções; há tempo para meditar, e verdadeira coletânea de momentos que exigem o agir. Por outra via, o interessante dessas idas e vindas proféticas é que nos alertam para um fato incontestável, do qual nem sempre temos consciência: vivenciamos a criação e o fim do mundo diariamente. Se conseguirmos manter desde o despertar o maior grau possível de coerência com a missão que nos cabe, aumentaremos as chances de uma aurora repleta de significado.



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