O kit escolar reprovado com veemência por representantes da sociedade brasileira e condenado pela presidente como sendo promotor de "propaganda de opção sexual" - embora ela admitisse não tê-lo analisado detidamente - tem se revelado um mecanismo de valor didático inestimável, pois estimulou o debate e pôs luz no tipo de ética que embasa a postura de alguns dos congressistas integrantes da bancada, por assim dizer, religiosa. Não discuto o objetivo destes representantes, já que atuariam na defesa de valores tidos por eles como necessários à manutenção de um Estado em que o bem de todos deve ultrapassar a noção míope que consagra direitos e garantias individuais, principalmente, quando em conflito com os inerentes aos da coletividade. Em outros termos, reconheço ser legítima a defesa que fazem no sentido de que o correto não deve assim sê-lo apenas ao particular, o que, aliás, se ocorresse, poderia levar a sociedade à implosão. Convém nos lembrarmos de que revoluções devastadoras começam com o levante de pequenas vozes, as quais acabam subjugando a pretensa maioria. Além de menções óbvias e, por isso, aqui descartadas, o que merece destaque na conduta desses congressistas, considerando o meio de onde vêm e a bandeira da qual são portadores, é o tipo de estratégia - seguramente, em nada espiritual - da qual se valeram no episódio: chantagearam o governo. Isto mesmo, se a presidência não vetasse o projeto do Ministério da Educação, iriam engrossar as fileiras que combatem um de seus importantes ministros, em especial, agora que foi despertada a curiosidade sobre o tipo de consultoria que ele andou prestando à sua clientela. Aliás, queira Deus que essas empresas não tenham sido consagradas em alguma licitação ou tido acesso a informações privilegiadas, mas... A preocupação decorre de uma razão extremamente simples, nas palavras do mestre judeu, os frutos - as atitudes - do líder revelam o seu caráter. Por mais que tente disfarçar, valendo-se de vestes nobres e virtuosas, sua essência desvendará a verdade. Será impossível enganar, indefinidamente, os que estão a sua volta ou que por ele são afetados. Logo, ficam abertas algumas questões: O caso Palocci é tão inexpressivo que só mereceria atenção se a vontade de nossos congressistas não fosse feita? Se o adversário - na hipótese, o político - rouba, mata e destrói, é legítimo ou ético agir da mesma forma? Os fins passaram a justificar os meios? Esse pessoal realmente crê nos princípios que professa e que utiliza também ao hipnotizar as massas? Creio que o tempo o esclarecerá, afinal, como ensina outra das lições Dele: "Não há nada escondido que não venha a ser revelado, nem oculto que não venha a se tornar conhecido". Ou, segundo reconheceu o próprio ex-presidente, em outro contexto, mas, certamente, com conotação profética: como "Isso tem dedo de Deus", a verdade terá que vir à tona.
Tem dedo de Deus no kit anti-homofobia
Ariovaldo Esgoti
30/05/2011