Tenho percebido certa medida de ressentimento entre alguns grupos religiosos que, surpreendidos pela criatividade das lideranças envolvidas, perdem-se no afã de purificar a doutrina, acabando por rejeitar tudo o que não se acomode em sua caixa cognitiva; vale dizer, desprezam a todos quantos não comunguem de sua estreita noção de bem e mal ou de certo e errado. Reconheço que tal peculiaridade não está restrita a grupos religiosos, já que se nos voltarmos à política, às ciências em geral e, por que não, àqueles que abdicaram de qualquer modelo de pensamento metafísico, constataremos que a regra é: "se você não concorda comigo, está errado e ponto final". Embora, como em toda boa regra, haja exceções, claro. Isto faz com que me lembre de mais uma das antigas lições da teologia cristã: um dos grandes prazeres do mestre galileu era justamente o de se assentar na companhia dos condenados e excluídos de seu tempo, porque, como teria dito, "Não são os que têm saúde que precisam de médico, mas sim os doentes". Creio que o problema, no fundo, é ditado por algumas de nossas vãs convicções. Apresentamo-nos como compassivos e cheios de amabilidade, mas oportunamente devoraremos sem piedade nossos adversários, mesmo os da própria casa. Podemos até defender que sobrevalorizamos o consenso, mas este assim o será se, e somente se, concordarem conosco... Talvez por isso, em outra ocasião, Ele surpreendeu os seus contemporâneos: "É necessário que vocês nasçam de novo". Expressão que por certo flerta com um legítimo paradoxo existencial, o que se confirmaria pela reação de Seu interlocutor: "Como alguém pode nascer, sendo velho? É claro que não pode entrar pela segunda vez no ventre de sua mãe e renascer!". É certo que não, mas é inegável o fato de que uma revolução cognitiva, se desenvolvida de forma adequada, pode nos brindar com uma nova consciência, uma nova compreensão da vida e de seus processos. É o que estudiosos do tema ousam designar de utopia, modelo que inspiraria o indivíduo em direção ao que promove o bem comum, à mútua integração e, assim, à paz. Valendo-me do prato do dia, refiro-me aos embates inter e intragrupais, não só os políticos, dentre as possibilidades, até os empresariais, imagino se não seria o caso de os contendores assumirem sua incapacidade absoluta ante ao direito dos demais, até porque resisti-lo equivale a atingir os próprios pés. Bradarão sem nada conseguir de substancial, exceto, talvez, registrar para a posteridade que abdicaram da razão ou da fé, conforme o caso, ao desprezar o fato inconteste de que o outro pode tanto quanto, senão mais. Um dos ecos daquela lição é que, se algo ou alguém precisa nascer de novo, isto se daria por ser possível perceber no ar o odor putrefato característico de que o estado potencial é o de decomposição, ainda que ironicamente o cadáver discorde a este respeito, de nada adiantando o uso do Chanel nº 5... Como rezava um antigo jingle, há fatos que não podem ser disfarçados. Quanto mais cedo a realidade for reconhecida, maiores as chances de mudança e de sobrevida. Já que o tempo não guarda rancor, ao menos, não tem que fazê-lo, necessariamente, por que não aproveitar para fazer a diferença agora? Pode ser que consigamos confirmar que um simples gesto será o bastante.
Utopia, um caminho de paz
Ariovaldo Esgoti
20/06/2011