Estou muito distante de poder ostentar o status de comentarista político ou econômico, dentre outras possibilidades, mas ser cidadão e também membro pleno da classe contábil são características que me permitem refletir sobre este e outros temas de interesse de muitos na sociedade; o que também faço por hobby.
Aliás, faço-o com recursos próprios, sem ter que recorrer a assessorias de imprensa estatais ou assemelhadas, simplesmente, porque, além de imoral, é ilegal valer-se delas para a promoção pessoal. Isto para que não adentre às consequências da propaganda enganosa, que se dá ainda quando dado indivíduo assina trabalho de outrem.
Bem, assim concebo-o, mas sei que nem todos estarão de acordo. Basta uma ligeira pesquisa e notaremos a avalanche de produções de algumas personalidades outrora faceiras e hoje obscuras (e vice-versa, claro), que subsistem apenas enquanto durar a função pública.
Quem costuma agir assim se esquece de que é muito fácil descobrir o engodo: basta comparar os textos e saberemos muito sobre seu autor. Podemos ainda comparar autores, em tese, distintos, mas que se expressam exatamente da mesma forma. Isto diz muito, por certo.
Estou seguro de que uma das maravilhas da grande rede é justamente imortalizar as publicações: ninguém se esquiva do que disse ou, conforme o caso, pagou a outrem para dizer em seu nome, pois o registro ficará para a posteridade. O silêncio, da mesma forma, é muito eloquente.
Em particular na economia, gestão ou contabilidade, tenho encontrado alguns trabalhos muito bem elaborados, enquanto outros nem tanto. Contudo, a despeito dos eventuais problemas que a redação possa apresentar, perceber que quem se expressa é o mesmo que assina faz com que me interesse mais por conhecer a opinião ali manifestada, mesmo que para discordar do todo ou em parte, principalmente, se houver equívoco material ou for plausível interpretação mais favorável ao mercado.
Não se trata de uma forma gratuita de puritanismo, visto que as nossas ações sempre ocultam algum interesse - não necessariamente ilegal, imoral ou antiético. Podemos até não estar conscientes a este respeito, o que não mudará em nada a questão. Só que se valemo-nos de certa estratégia, como, por exemplo, a divulgação de artigos, crônicas ou notas, ao nos posicionarmos como autores, passamos a mensagem de que conhecemos o assunto e que, no contexto adequado, estaremos à disposição para debatê-lo.
Nesta área não procede a corruptela daquele antigo slogan de uma de nossas instituições: em vez de "(Fulano) é gente que faz", "(Fulano) é gente que manda fazer". Se não tenho nada a dizer ou se tenho e não estou seguro o suficiente a este respeito ou mesmo para produção de um texto, será admissível, quando muito, a entrevista, recurso do qual o jornalismo usa e, às vezes, abusa.
Entretanto, tenho que concordar, ao menos em parte, com o que difunde um ou outro pesquisador em Contabilidade, no sentido de que a produção técnica do contador, ainda mais quando evidenciada num relatório ou parecer ou artigo, revela muito do grau de qualificação que por si e seus colaboradores está presente em sua proposta de trabalho.
Apesar de até ser possível defendê-lo, não afirmei aqui que o conhecimento dos profissionais da contabilidade tem a dimensão de suas produções literárias, exceto se ampliássemos a noção ao que ele diz no dia-a-dia, não somente por escrito, em especial, a clientes e demais interessados que o interrogam acerca das vicissitudes societárias ou tributárias, em meio aos desafios que a economia contemporânea nos brinda.
Em alguns casos a situação, de fato, é sôfrega. Na melhor das hipóteses, ainda que soubessem muito, nem sempre conseguem expressá-lo a quem quer que seja, o que mantém o cliente com o mesmo problema, ou seja, sem acesso a informações de qualidade. Portanto, presa fácil das intempéries mercadológicas.
Nestes tempos em que predominam a escrituração digital, a convergência a modelos internacionais, a voracidade arrecadadora do Estado e os velhos ou novos desafios à gestão, já que o senhor mercado é dinâmico por natureza, para aumentar as chances de sobrevivência e, oxalá, cogitar sobre crescimento o empresariado terá que aprender a "tirar leite de pedra", porque já não procede mais ficar à mercê de pretensos experts.
Embora importante, como o número de linhas produzidas pode não significar tanto assim, quer escrevam muito ou pouco ou nada, os profissionais terão que ser testados profundamente pelas empresas. É chegada a hora de se sobressair o ser, em vez de o parecer. O que nos remete à primazia da essência sobre a forma, princípio que sem dúvidas tem uma aplicabilidade ainda maior do que aquela que se admite no cotidiano.