De forma usual, não se discute que entre o "ser" e o "parecer" o "ser" deva sempre figurar em primeiro plano. Questão de integridade, um de nossos valores primordiais. Mas como resistir à constatação de que, individualmente ou enquanto sociedade, temos a tendência de priorizar o parecer? Somos assolados por esta tentação mesmo nas situações mais corriqueiras. Crianças se fazem de doentes para manipular os pais ou responsáveis. Adolescentes se gabam das muitas conquistas, às vezes, apelando para a ficção. Jovens se tornam iguais, enquanto buscam parecer diferentes. Adultos reprovam com veemência nos outros as suas próprias falhas. Profissionais autossuficientes discursam em benefício da gestão participativa. Trabalhadores se esforçam para serem percebidos como inovadores, capazes ou criativos. Empresas com desempenho tacanho só não figuram entre as "maiores e melhores" porque o governo, a economia e a tecnologia não "apoiam"... Não nos esqueçamos ainda da classe política, principalmente, de alguns dos governantes ou representantes que posam de defensores do bem comum quando, na realidade, o único bem que vislumbram é o próprio, além de, no máximo, o dos seus... Curiosamente, a própria história registra o fenômeno como um dos pecados capitais. Os antigos pareciam acreditar que se tal comportamento fosse admitido sem restrições haveria o risco de a sociedade vir a perecer, o que fez deste estado de perigo algo plausível. Afinal, como poderia prosperar uma nação em que a mentira fosse a regra? Incoerências à parte, o fato é que as nações não só prosperaram como conseguiram evoluir, sem dar o menor sinal de que a extinção devesse ser temida. Isto mesmo, por mais abjeta que possa se revelar a ideia, a vida floresceu graças ao engodo. A este respeito a Mãe Natureza nos ensina desde tempos imemoriais. Crianças conseguiriam a mesma atenção na hipótese de somente protestarem ante a problemas reais? Adolescentes seriam aceitos em seu grupo se admitissem a verdade sobre suas investidas? Jovens conseguiriam marcar posição sem se rebelar diante do sistema? Adultos resistiriam à constatação de que em boa medida o mundo é projeção de suas mais acalentadas frustrações? O profissional autossuficiente é capaz de conseguir algum benefício duradouro sem o apoio do colegiado que defende a importância do grupo, muitas vezes responsável pelo controle orçamentário dos projetos? Os trabalhadores seriam tão produtivos se percebessem o descaso da administração com suas contribuições, às vezes, incipientes ou inócuas? Aqueles cujo desempenho empresarial é inexpressivo ou que estão às voltas com negócios deficitários, resistiriam à constatação de que são provas vivas de que o fracasso também é um resultado, e que só a duras penas pode ser convertido em recomeço? E quanto a alguns de nossos governantes ou representantes, seriam capazes de arregimentar as massas, que sonham com uma mudança drástica em suas vidas, principalmente se advindas de esforço zero, se revelassem o desprezo que têm por elas? Não tem jeito: a "grande maioria" sucumbe à eterna tentação de apenas "parecer", enquanto uma "pequena maioria" (sic) se esforça para "ser"... Queira Deus que consigamos superar a contradição, investida esta que se dará passo a passo, ainda que em afronta à Natureza, em especial, a Humana.
A eterna tentação de apenas parecer
Ariovaldo Esgoti
12/09/2011