O fumante e o direito de ir e vir


Não, não sou nem nunca fui fumante - ao menos, não o ativo. E, já que passei ao largo do vício por quase meio século, não faria muito sentido mudar agora. Ainda mais que os malefícios do hábito são de uma contundência tal que só por insanidade alguém que o reconheça viria a abraçá-lo - por mais atraente que seja o pretenso sabor. Se fosse valer a minha vontade, o fumo deveria ser completamente banido da face do planeta. Nada de área para fumantes e não fumantes ou coisas do gênero. E, claro, estenderia o banimento a poluições de quaisquer espécies: visuais, sonoras, atmosféricas, ideológicas, etc. Mas, a vida não funciona exatamente assim. É preciso respeitar a legalidade das medidas e das condutas. Se houvesse o império da vontade do particular o mundo poderia vir a ser tomado pelo caos. O motivo é muito simples: o consenso tão necessário ao mínimo de convívio harmônico não parece nada natural para a espécie humana. Ao que tudo indica, temos certa predisposição para conflitos e embates de toda sorte. Nem a família consegue escapar. Certa vez, o próprio mestre nazareno deu eco à voz de um dos antigos profetas daquele povo: "os inimigos do homem serão os da sua própria casa". Bem, se assim o é, por que propor o tema? Simples também: faço-o para colocar em xeque o oportunismo de alguns, inclusive daqueles que nos representam no Legislativo, no Executivo e no Judiciário. A legislação, seja municipal, seja estadual, que busca restringir os espaços que poderiam ser frequentados pelo fumante me parece um atendado à democracia. Não que não devesse haver restrições. Em especial nos locais fechados não concebo alternativa melhor do que fazê-lo de forma cabal - a reserva de espaços é um mal necessário. O que causa espanto é que estão querendo impedir o direito de ir e vir do fumante até em locais abertos. Têm proliferado medidas que ousam barrar, por exemplo, o seu trânsito ou permanência em praças, calçadas, etc. Aonde estaria o problema, já que não legislo em causa própria? Se é que os malefícios do tabaco - ou da nicotina - são de tal intensidade que o caso realmente deva ser tratado como questão de saúde pública, inclusive preventiva, por que é que, afinal, produtores, distribuidores e revendedores ainda têm permissão para explorar a atividade? O que pode ser percebido é que estão tentando inverter a ordem do problema, por assim dizer, criminalizando o consumidor, enquanto o mercado fornecedor permanece praticamente intocado. Querem resolver o problema de forma coerente? Que comecem enfrentando aqueles que já lucraram demais com a venda das ideias que têm sustentado este subproduto do engodo - aqueles que por anos a fio têm contaminado o imaginário da sociedade, consumidora em potencial, com mentiras das mais variadas matizes, por exemplo, associando o produto, ou melhor, o vício a status, sucesso e controle do estresse, dentre outras abominações. Aliás, já que a melhoria da qualidade do ar é empreita que conquistou relevo, por que não repensá-la no contexto da matriz energética do país - e, quiçá, do mundo? É notória a poluição provocada por setores da indústria em seu processo fabril e por alguns dos seus bens ou produtos de consumo como: automóvel, ar condicionado, geladeira, máquinas, aparelhos, equipamentos, desodorante, inseticida, medicamentos, etc. Será que evoluiremos ao ponto de conseguirmos pensar a qualidade de vida de forma realmente séria e coerente, à parte de discussões contaminadas por interesses que priorizam tudo, menos o bem do cidadão comum? Que a indústria polui direta ou indiretamente é fato, mas sobreviveríamos sem alguns dos recursos que disponibilizam ou de sua contribuição à economia? O que pensam os trabalhadores e demais agentes da cadeia produtiva a este respeito: apoiariam o fechamento irrestrito de fábricas ou empresas que poluem ou que contribuem para tanto ao produzir ou revender os bens que a sociedade reclama? Podemos até reprovar a ideia, só que ao menos por enquanto a máxima atribuída a Maquiavel parece adequada: "os fins justificam os meios", desde que - claro - imbuídos de legitimidade. Que avancem as reflexões em prol de modelos viáveis no longo prazo, ao tempo em que nossos pés sejam mantidos em solo firme. A propósito, enquanto a lei autorizar o funcionamento do mercado fornecedor, o fumante tem o direito de ir e vir. Abaixo a demagogia!



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