Estou ciente de que não convém a tentativa de reduzirmos a vida a uma simples escolha maniqueísta. Apesar disso, proponho: quem é mais feliz aquele cuja jornada é de oito ou de dezesseis horas diárias, por exemplo? Ah, sem que deixemos, necessariamente, de lado os demais dias que também podem ser muito produtivos: sábados, domingos e feriados.
Dependendo do público selecionado na amostragem, acredito que pesquisas com este objetivo provavelmente chegassem a um resultado, no mínimo, alarmante: a maior parcela responderia que, para começar, a jornada legal é de oito horas, em regra. Sim, porque, em meio às situações possíveis e demais particularidades, há segmentos em que ela cai para seis horas.
Num franzir de semblantes, alguns até se arrepiariam ante a menção de que há "loucos" que sentem prazer numa jornada mais extensa. Afinal, se, por um lado, é preciso trabalhar, por outro, levando-se em conta a dignidade da pessoa humana, teriam que haver razoáveis ou generosos períodos de descanso, inclusive, em sinal de respeito ao legado do Criador.
Certamente, não estou insinuando que a felicidade esteja relacionada de forma direta à duração do labor diário, até porque podemos encontrar pessoas felizes e realizadas em ambos os extremos - tanto em relação a zero trabalho (o ócio criativo), quanto a faixas ainda maiores que a sugerida inicialmente (digamos a do "workaholic").
A despeito de ser plausível o foco nos caracteres psicológicos atinentes ao ser humano e nos desdobramentos relativos aos fatores motivacionais, avalio que seja mais apropriado aos objetivos deste espaço direcionar a reflexão a questões de ordem prática, considerando o interesse daqueles que estão à frente na condução de negócios ou que colaboram mediante a integração das equipes de apoio que promovem as empresas.
Gostando ou não da carga mínima que o empresariado segue, devido ao consenso mercadológico, que inclusive foi recepcionado pela legislação trabalhista, gestores ou profissionais em geral passam parcela expressiva de suas vidas concentrados nos interesses das empresas as quais se vincularam, dedicando usualmente um terço do tempo total, o que representa cinquenta por cento em média do período desperto, sem que aqui nos preocupemos com o grau de consciência com que o fazem.
Sem dúvidas, são taxas muito importantes. Não obstante, com eloquência, mesmo a jornada mínima já será suficiente para nos colocar diante de algumas reflexões, como: É possível ser criativo numa atividade detestável? Há genuína produtividade num segmento que massacra os ideais mais básicos do indivíduo? Considerando que o grau de estresse precisa ser mantido em patamares razoáveis, para a efetiva qualidade de vida, como fica a situação daquele que observa a jornada por puro dever?
Neste sentido, é oportuno que indaguemos: É mais importante fazer o que se gosta ou gostar do que se faz? Questão esta que, naturalmente, vai muito além da improvável hipótese de ser mero trocadilho, na perspectiva de olhares menos atentos, talvez, iludidos pela noção de que algo seja bom ou mau em si.
Respeitarei a opinião diversa de quem assim o conceber, mas, em minha leitura e experiência, primeiro aprende-se a gostar do que se faz, para, então, poder ser saboreada a oportunidade de se fazer o que se gosta. Isto por uma razão muito simples: é improvável que alguém goste daquilo que desconhece ou que tenha proficiência sem treinamento adequado.
Outro fator igualmente digno de nota é que invariavelmente o que se gosta pressupõe um ou mais pré-requisitos, os quais podem até ser bem indigestos. Com a significação de que aquele que não se dispõe a pagar o preço da aprendizagem, na realidade, flerta com a imaturidade ou ignorância permanente. Depois não adianta chorar pela perda de oportunidades ou se lamentar por nunca tê-las percebido.
A propósito, no mundo corporativo contemporâneo não faz muito sentido julgar que a manifestação criativa ou solução a dado desafio sempre emerja no horário de expediente regular. Pode até acontecer, mas é elevada a probabilidade de que grandes ideias ocorram justamente no período em que nos desviamos a outros assuntos, no contexto de nossos interesses globais, mesmo que no prolongamento da carga diária.
Logo, imaginar que ao ser encerrada a jornada laboral estaríamos livres para fazer o que de fato gostamos é atitude que, além de ser contraproducente, mascara o verdadeiro problema: a falta de propósito; já que ninguém atinge o objetivo que não foi traçado ou conquista metas não estabelecidas. Possivelmente, chegaríamos a alguns portos ou praias desertas, porém como meras presas das correntes marítimas.