O caos precede a ordem


Algumas filosofias têm resistido ao tempo pelo grau de coerência com que conseguem explicar as mazelas da vida... Por exemplo, segundo a tradição judaico-cristã, nem sempre o mundo teria sido como o conhecemos, com cada coisa aparentemente no seu devido lugar ou, ao menos, com as condições que viriam a favorecer a existência das espécies - em particular, a humana. Um dos princípios que sobreviveram é o que prescreve, em linhas gerais, que "A Ordem Emergiu do Caos, pelas mãos do Criador", não sendo o caso de aqui nos determos sobre se haveria a possibilidade de a vida ser incausada, até porque em nosso mundo fático praticamente tudo estimula nossa imaginação com a ideia de que, se existe o relógio, teria que haver o relojoeiro... Não que o raciocínio seja, de fato, inquestionável, mas, já que este tipo de discussão, em regra, é contraproducente, não faz muito sentido nos acorrentarmos a ela... Tal constatação faz com que nos voltemos ao que realmente importa: É possível haver construção sem que haja algum nível de desordem? Basta olharmos a nossa volta e bem ao método empírico - um dos pilares da ciência contemporânea - seremos confrontados pela evidência de que enquanto não tivermos uma referência segura sobre o caos não conseguiremos diferenciar o quadro do que poderia ser designado de ordem. Em outras palavras, reconhecemos que dado ambiente está limpo porque temos o registro exato do que seja aquele subjugado pela sujeira. Identificamos a beleza porque repudiamos a feiura. Valorizamos a segurança, pois o contrário poderia colocar em risco a própria existência. Vislumbramos o que se configuraria como efeito e deduzimos: tem que haver uma causa... Na prática, estamos cativos de uma forma de perceber o mundo que privilegia os contrastes: guerra e paz; injustiça e justiça; dor e alívio; quente e frio; fracasso e sucesso; enfermidade e saúde; pobreza e riqueza; mal e bem-estar; escassez e fartura; pessimismo e otimismo; etc. Creio que essa percepção, aliada a uma das lições que a história nos apresenta, poderia revolucionar a vida de muitos, principalmente, daqueles que julgam ser plausível esperar por dias melhores com esforço zero, ou seja, que se a vida tiver que mudar a mudança aconteceria a despeito de. Não é bem assim que a coisa funciona, por mais que protestemos nesta direção. Examinando a linha do tempo da humanidade notaremos que todos os recursos que favoreceram a civilização tal qual se nos apresenta tiveram que ser reunidos, processados e transformados. Em outros termos, partimos de um ponto em que nada ou muito pouco havia e mediante o trabalho diligente construímos dias melhores... Precisamos reconhecer que estamos correndo um grave risco neste mundo acelerado: se desprezarmos o fato de que há um ciclo subjacente a quase tudo, poderemos perder a oportunidade, às vezes única, de usufruirmos do resultado que seria obtido caso tivéssemos um pouco mais de paciência e zelo. Assim colocado, fica evidente que de nada adianta, por exemplo, reclamarmos do sistema educacional, pois a única forma de corrigirmos a distorção é assumindo a responsabilidade pela própria aprendizagem para, então, efetivamente conseguirmos colaborar com os demais. Outro desperdício absurdo de tempo é o ativismo que cobra do outro a mudança que deveria começar com o próprio indivíduo, por simples questão de coerência. Se constarmos que nossos governantes ou representantes são desonestos, isto, na realidade, serviria apenas para indicar que fomos nós os responsáveis por elegê-los. Pode ter sido por culpa ou dolo, mas ainda assim a responsabilidade é nossa. Quanto mais cedo assumirmos que o mundo é o reflexo de nossos ideais, planos, ações e omissões melhor, pois aumentaremos as chances de êxito da única revolução que merece ser defendida, aquela em que a mudança parte do individual ao coletivo ou do interior ao exterior, conforme o caso. Concluindo, se estamos cercados pelo caos, contanto que a nossa cota de sacrifício tenha sido cumprida na labuta diária, o mais apropriado é celebrarmos o edifício da nova existência que certamente emergirá.



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