Num desses acasos do cotidiano encontrei um velho conhecido; alguém com o qual frequentara a saudosa escola técnica.
Como é normal em tais ocasiões, especialmente entre ex-colegas de turma, conversamos sobre várias questões e, seguindo a um rito quase cármico, desembocamos nos desafios que tem assolado a contabilidade brasileira.
Ao indagá-lo sobre o andamento dos preparativos para enfrentar as exigências do Sistema Público de Escrituração Digital (SPED), perplexo, ouvi:
- Não, não, isto só atinge grandes empresas. Normalmente as exigências deste tipo são apenas para as sociedades anônimas. Como atendo as pequenas e médias, mesmo fora do Simples Nacional, não há motivos para preocupações...
Não conseguindo me conter, arrisquei:
- Você estaria afirmando que dentre os contribuintes do imposto pelo lucro real ou presumido, apenas as sociedades anônimas e as demais de grande porte foram afetadas pelos projetos do SPED? Que somente estes casos estariam sujeitos à Escrituração Contábil Digital, ao Controle Fiscal Contábil de Transição e, dentre outros, à Escrituração Fiscal Digital da Contribuição para o Programa de Integração Social e de Formação do Patrimônio do Servidor Público - PIS/PASEP e da Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social - COFINS?
Não ouso colocar em palavras o que pensei e senti diante de sua resposta:
- Olha, meu amigo, "céus e terra passarão", mas a contabilidade permanecerá, apesar do que dizem as consultorias. Eu não deixo os meus clientes entrarem na conversa desse pessoal que decora algumas siglas e quer impô-las ao mercado... Isto é coisa do capitalismo e da globalização... Não fosse o neoliberalismo não haveria sequer ruído...
A esta altura tive que me recordar da existência de um compromisso urgente - em local incerto e não sabido - e, assim, me despedi do colega que, apesar do absurdo, já havia passado deste para outro mundo, apenas não havia se dado conta disso ainda.
Não tendo como conter um misto de indignação e tristeza, já que ele não se dera conta da própria ruína, além de ter arrastado os seus clientes consigo, retomei o fôlego e retornei à realidade, ao mundo em que "ordem e progresso" ainda são tidos por lema, a despeito de quaisquer preferências extravagantes.
Resta-me torcer para que o empresariado vítima daquela sorte de atendimento perceba o erro enquanto recursos valiosos e potencialmente escassos puderem ser poupados.
Isto porque o negócio que conta atualmente com processos inaptos ao enfrentamento das demandas legais tem tudo para padecer nas mãos de algozes que comem e bebem à sua mesa, os quais, por sua vez, já sucumbiram ante a ameaça silenciosa: a alienação que decorre de uma ideologia retrógrada.