Eternização do presente


Em certo sentido, foi inevitável: aqui estamos uma vez mais recapitulando as lições do último ano ao tempo em que planejamos algumas mudanças para o vindouro. E ainda bem que assim o seja, já que temos a oportunidade de repensar os equívocos, os desafios, os acertos e os projetos, claro. Não que tal atitude devesse de fato prevalecer somente neste período, principalmente porque, quando necessária alguma readequação, o ideal é que ocorra em tempo de podermos evitar tragédias em potencial. Mas é muito difícil resistirmos à constatação de que a retrospectiva terá que ser feita num momento ou noutro. Alguns chegam a esta fase torcendo para que o velho ano termine de uma vez, imaginando que o novo venha a assegurar experiências agradáveis, satisfatórias ou, ao menos, não tão dramáticas. É como se o inconsciente tivesse assumido que o calendário remete a algo que seja real em si, às vezes, a um adversário que nos combateria de forma incansável, razão pela qual, "se vai, vai tarde". O clima desta etapa realmente poderia nos confundir caso cedêssemos à tentação de julgar que o tempo existe, ou seja, que ele é algo mais do que apenas um critério adotado para acomodar as informações que reunimos ao longo de nossa jornada. Adicione-se a isto as lembranças que acumulamos sobre o nosso próprio desenvolvimento, desde tenra idade, e, "Bingo!", a confusão está formada. Como nossa percepção tende à linearidade, visto que notamos a sucessão das horas, dos dias, das semanas, dos meses e, assim, dos anos, podemos ter a impressão de que os eventuais tropeços do último ano desaparecerão como que por encanto simplesmente ao adentrarmos no novo. Ilusão esta que nos impeliria a alguns ritos de passagem, perseguindo a superação até por recurso ao mágico. Entretanto, aos olhos atentos, na realidade, existe apenas o aqui e agora, de fato, o hoje, cuja implicação prática é a de que somente poderemos aspirar por dias melhores se em nosso presente tivermos feito o necessário para assegurá-los. Em outros termos, se colecionamos equívocos e resistimos à mudança durante o ano inteiro, o advento do novo em nada nos beneficiaria. Já que estamos apenas diante dos dias que colecionamos não seria mais produtivo se nos déssemos conta de que a mudança eventualmente necessária tem que ocorrer agora, ainda que de forma embrionária por meio de uma simples ideia ou de um pequeno avanço? Qual seria o impacto de uma decisão que até pode mas não precisa ser revolucionária? O que produziria em nossas vidas o compromisso de darmos o passo extra neste exato instante? Estamos realmente conscientes de que, se alguém em algum lugar pôde, também podemos? Aliás, mesmo naqueles campos em que ninguém produziu algo ainda, alguém não acabará fazendo-o de uma forma ou de outra? E, se qualquer outro com preparação adequada virá a fazê-lo, não poderíamos também? Não por acaso o mestre galileu sentenciou: "Não se preocupem com o amanhã (e não sofram com o ontem), pois o amanhã se preocupará consigo mesmo (assim como o ontem já o fez). Basta a cada dia o seu próprio mal". O que, naturalmente, não apoia a tese daqueles que defendem o prazer efêmero em detrimento das conquistas que subsistem. Só por ingenuidade se suporia que ações ou omissões não iriam gerar consequências, visto que o fazem com precisão matemática. Bem, como não tenho a menor pretensão de produzir um tratado sobre o tempo ou mesmo a realidade, o que deixo aos filósofos de plantão, concluo com o reconhecimento de que as experiências nos promovem, quer sejam agradáveis ou nem tanto. Isto porque cada vírgula em nossa história contribuiu para definir quem somos. É como se a vida nos ensinasse que o ano novo será essencialmente a eternização do presente, de fato, do dia de hoje.



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