Não estou certo sobre sua opinião a respeito do assunto, mas se o carnaval não é feriado, já que pouca coisa funciona nesta época, em particular, então o que é? Por que será que os Poderes da União saem de cena? O que dizer do sistema financeiro e de alguns ramos do comércio, da indústria e dos serviços? Sempre encontramos os mestres da legislação - juízes de fim de semana - ávidos por demonstrarem que segundo a lei ou decreto tal a data em que se comemora o carnaval não é nada mais que um período como qualquer outro, por isso as empresas deveriam funcionar normalmente. Quanta ingenuidade. Devem ter faltado àquela aula, em especial, quando, estudando-se as Fontes do Direito, constava-se que não apenas o Direito teve o seu início a partir dos costumes consagrados pela sociedade em questão como normas jurídicas são rejeitadas ou formuladas com base no que poderíamos designar de a vontade do povo. Curiosamente, em outro momento, estudando mitologia, os que igualmente não perderam a aula, tiveram o privilégio de aprender que a festa data de, pelo menos, o século VI a.C., havendo registros de que os gregos homenageariam neste período a divindade responsável pela fertilidade das terras, cujos reflexos eram sentidos na farta colheita. Muita coisa mudou, é fato. A sociedade contemporânea incorporou e atualizou elementos das antigas tradições. A igreja interferiu até onde pôde. E cá estamos nós. Ano a ano, tendo que nos dividir entre tarefas inadiáveis e o clamor social pela oportunidade de descanso e festa. Isto para que nada cogitemos sobre a mesma batida abjeta que deve fazer revirar no túmulo o mais pálido dos antigos musicistas. Bem, na realidade, temos muito o que comemorar. Afinal, como muitos acreditam que o país só volte a funcionar após o não-feriado de carnaval, agora poderemos nos concentrar nas questões importantes que nos assolam e afligem a humanidade, e, por que não, aterrorizam o mercado. Oxalá com o fim deste ciclo de festas, estejamos mais animados para a construção de um mundo melhor - mais justo. Um mundo onde o direito do outro seja muito mais que um mero discurso em nome de uma pseudodignidade da pessoa humana. Já é hora, enfim, de nos levantarmos e, na exata medida de nossa disponibilidade e recursos, darmos aquele passo que pode ser a diferença entre a mudança e a continuidade. Não mudança apenas pela novidade em si, o que, segundo nossos pais e avós, não passaria de fogo de palha. Mas pelo compromisso com a atitude que resulta dos valores que, embora imperfeitos, nos permitem sonhar com um mundo realmente evoluído.
Não é feriado
Ariovaldo Esgoti
22/02/2012