Lembro-me de um tempo em que aos nos depararmos com o termo igreja éramos induzidos a pensar em honestidade, respeito e justiça, além de muitos dos demais aspectos relacionados a um bom caráter. Naquele espaço, era coisa relativamente comum o ensino de que o indivíduo deveria ser exemplo em seu meio, compartilhando, assim, suas convicções, não só mediante o uso de palavras, mas sobretudo pelas atitudes. Quando começou a circular o jargão "pequenas igrejas, grandes negócios", apesar da consistência que crescia a passos largos para esta motivação, muitos estranhavam a referência, pois até então o lugar era sinônimo de nobreza e seriedade. Parecia um completo absurdo o admitir-se que, como mais um dos empreendimentos humanos, estaria condenada a padecer dos mesmos vícios, que por incontáveis vezes nos assombraram. Os números são alarmantes. Por exemplo, numa das recentes operações da Polícia Federal a quadrilha desarticulada, que se valia das benesses de um templo flagrantemente de fachada, teria movimentado, ao menos, R$ 400 milhões, em nome da verdadeira filosofia da casa: a fraude. Aliás, em vez de "Operação Lava Rápido", poderia ter sido denominada de "Operação Estrela Cadente". Qualquer semelhança com o mito da queda do "anjo de luz" não é mera coincidência. De tempos em tempos somos confrontados com informações sobre o desvio de parte da arrecadação de algumas denominações, que investem em quase tudo, menos no real propósito de sua criação. Isto numa perspectiva de legalidade estrita, claro, porque se dermos a devida atenção constaremos que, de fato, cumprem os seus objetivos primordiais: dissimular e roubar. Reconheço que não convém exageramos na avaliação, visto que nem todo sacerdócio é corrupto. Muitos realizaram trabalhos dignos de nota. A questão é de outra ordem: cresce num ritmo alarmante o número de falsos apostolados, de pretensos iluminados ou de pseudodetentores da estirpe divina. São raposas que conseguem representar com maestria o papel, pelo qual seus incautos seguidores desejam ser cativados. Nem mesmo será o caso de entrarmos no mérito sobre se haveria alguma igreja verdadeira, porque numa análise rigorosa nem a primeira iria subsistir de tão contaminada que foi a sua origem. O quadro promete ficar ainda mais interessante quando consideramos que a grande conquista de suas herdeiras, as seitas que se seguiram à pretensa reforma, foi aperfeiçoar a arte do engano, inclusive dissociando-se abusivamente dos ideais de seu pretenso mentor. Dentre os desvios corriqueiros temos justamente a política financeira dessas "pequenas empresas". Criam leis infundadas para camuflar o que acontece de verdade em suas celebrações: espoliam os néscios até a alma. O contraste com o que defendia, por exemplo, o próprio Lutero é contundente. Para ele valia muito mais o socorro aos pobres do que o desperdício de se depositar os recursos nos cofres eclesiásticos. É isto mesmo, as famosas teses do reformador não apoiam a conduta de suas filhas renegadas. Por aqueles princípios, o presente de grego que acolhemos são "grandes negócios" que servem apenas para o enriquecimento ilícito de uns poucos - a despeito de ainda ser possível encontrarmos líderes íntegros, exceção a essa regra abominável. Como disse um dos antigos profetas, "o povo perece por falta de conhecimento". "Quem conseguir ouça", e o que tiver ousadia, denuncie este sistema falido, comprometendo-se com a virtude.
Pequenas Igrejas, Grandes Negócios
Ariovaldo Esgoti
01/11/2012