Em meio às inúmeras experiências que nos tornam possível celebrar a vida, este ano serviu para demonstrar que acima de tudo somos sobreviventes. "O que não nos destrói, pode nos tornar mais fortes", diz a sabedoria popular. Aprendemos a resistir aos prognósticos mais sombrios. Sim, porque não foram poucas as vezes que nos profetizaram o fim. Provavelmente tentarão de novo, mas a tendência já foi estabelecida: ainda que ignorem o fato, os profetas do caos estão condenados a falhar. O que é ótimo, ao menos, para os que perceberam que o mundo real é preferível ao do faz de conta. Isto não significa que conseguiremos nos esquivar indefinidamente de desafios que bem podem querer nos testar até a virtual exaustão. O crescimento pressupõe a capacidade de superar. Serve, na realidade, para evidenciar que somos os maiores responsáveis pelo tipo de existência que teremos. É claro que sempre haverá espaço para recursos que nos estimulem à sublimação. Longe de ter a primazia do conhecimento, o papel da Ciência é o de nos manter com os pés no chão - livrar-nos dos desvios em que incorreríamos se estivéssemos exclusivamente nas mãos da subjetividade. Desde que nossa motivação seja realmente nobre, não é preciso temê-la; embora ela acabe por expor o flagelo em potencial, que porventura esteja dissimulado em discursos e instituições caros à sociedade. Apesar das conquistas de nossa civilização, ainda não sabemos o que nos está reservado - até aonde poderemos chegar. Aliás, nem mesmo as origens foram bem compreendidas até agora. Entretanto, se soubermos atribuir o sentido mais apropriado às nossas experiências conseguiremos avançar rumo à realização de nosso potencial. Certamente este é um dos dons que nos distinguem: a habilidade de ressignificar. Sim, além de podermos reelaborar nossa história, podemos fixar as bases de experiências vindouras. Não se trata daquela filosofia novelista que nos coloca como Aladim junto à famosa lâmpada para a obtenção de quaisquer desejos, como pretendem alguns. Contanto que estejamos dispostos a empreender a caminhada e, se for o caso, a enfrentar terrenos acidentados, estaremos muito mais próximos do grande objetivo do que se simplesmente ficássemos passivos, aguardando alguma providência. Por outro lado, convictos de que fizemos tudo o que estava ao nosso alcance e talvez um pouco mais, a melhor estratégia pode ser, enfim, aguardar o desenrolar dos acontecimentos, conservando a sobriedade e expectativa. O importante é que nos inspiremos na postura do sábio agricultor que, almejando colher o melhor fruto na época certa, sempre prepara o terreno e realiza o plantio. A despeito das intempéries, ele aprendeu a arte de cultivar a esperança.
A arte de cultivar a esperança
Ariovaldo Esgoti
29/12/2012