Ninguém ficará por aqui para sempre, isto é fato, mas também não é preciso contribuir para que a estada se abrevie. A vida pode ser vivida de forma que os problemas, antes de serem obstáculos, funcionem como propulsores para dias melhores. Sim, as tentações são muitas. É preciso aprender a conviver com uma mídia que parece ter predileção pelo consumismo e pela destruição, e que se for deixada à vontade pode acabar neutralizando qualquer vestígio de entusiasmo. Também podemos ser alvos fáceis de alimentos que foram concebidos para a captura do olhar e do paladar, escondendo o que realmente fazem: bloqueiam o sistema circulatório e sobrecarregam os órgãos vitais, promovendo a ruína do organismo. Se permitirmos que culturas tendenciosas nos dominem, poderemos chegar ao ponto de termos tempo para quase tudo menos para o que realmente estimula o bem-estar e a saúde. Apesar destes e de outros desafios é perfeitamente plausível que assumamos o controle, passando a definir o rumo que de fato valha a pena ser tomado. De forma semelhante a do período inicial de nossa existência, é bem provável que os primeiros passos impliquem em uma dose razoável de sacrifício, de sofrimento. Podem ter sido tantos anos de hábitos nocivos que o natural talvez só o seja por desvio interpretativo. Reza a tradição que "água mole em pedra dura tanto bate até que fura", ou seja, que a repetição é capaz de fazer com que a exceção se transforme em regra, subvertendo o processo, geralmente em nosso próprio prejuízo. Mas não é necessário que assim o seja "ad eternum". Como a criança que fomos um dia, ainda no ventre materno, teremos que deixar o aparente estado de conforto, pois, se insistirmos em permanecer nas mesmas condições indefinidamente, correremos o risco de passarmos à condição de vítimas de um processo abortivo. A boa notícia é que o estado de liberdade em relação a tudo o que nos mantêm prisioneiros pode ser alcançado a partir de medidas simples, como, por exemplo: autoconhecimento; reconhecimento do terreno em que estamos e para onde vamos; comprometimento com as decisões tomadas; e reflexão sobre os resultados, para readequação da conduta, sempre que necessário fazê-lo.
Deixando o estado de conforto
Ariovaldo Esgoti
29/03/2013