Apesar de serem potencialmente nobres as razões que levaram o governo à prorrogação - até o final do ano - da política de redução do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) incidente sobre automóveis, comete um equívoco grosseiro ao desprezar o estado de caos em que se encontram as vias urbanas. Longe de se configurar como solução, a medida tende a acentuar os problemas existentes. De um modo geral as cidades já não suportam mais o tráfego intenso que passou a fazer parte do dia a dia. São vários os problemas criados pela enorme frota que disputa espaço no trânsito: poluição atmosférica e sonora, danos à vida e ao patrimônio, elevado custo de manutenção das vias, etc. Não se discute a utilização do veículo por quem precise dele inclusive para trabalhar, mas não podemos desprezar a evidência de que apenas desenvolvemos esse grau elevado de dependência do transporte pessoal porque o transporte público virtualmente inexiste ou não é confiável. Segundo dados do Departamento Nacional de Trânsito (Denatran), a frota de veículos chegou a dobrar em algumas regiões, na maioria das vezes, sem a menor condição de suportar tal demanda, e, mesmo naquelas em que o quadro ainda não se consumou, é somente questão de tempo para que o caos se instale em definitivo. Já está mais do que na hora de se repensar essa política de crescimento a qualquer custo. A própria história nos ensina que o objetivo de se conquistar décadas em poucos anos não passa de ilusão. Levamos muito tempo para superar, ao menos em parte, as consequências daquela utopia. Não faz o menor sentido a eleição do suicídio ou da eutanásia como a grande meta de uma existência, mas, apesar da contradição, é exatamente isto que o governo tem feito. No afã de conciliar crescimento e inflação reduzida, de forma irresponsável até, visto que despreza os requisitos da sustentabilidade, age como se a nação fosse um grande depósito para a guarda desse entulho, que diariamente é despejado nas cidades já abarrotadas.
IPI reduzido está bem longe de ser a solução
Ariovaldo Esgoti
01/04/2013