A cultura do desempenho medíocre


Apesar dos protestos, principalmente por parte de quem de forma usual consegue defender bem o seu espaço, o fato é que o país está, sim, em dívida com vários grupos sociais, o que em tese justificaria, na realidade, até a ampliação das políticas de ações afirmativas como, por exemplo, a de quotas para estudantes em instituições públicas. O problema não está neste ponto, de fato, diz respeito a um aspecto que tais políticas não conseguem remover: a cultura do desempenho medíocre. Por mais chocante que possa parecer a assertiva, é difícil resistirmos à constatação de que apenas colocar o aluno na universidade não irá mudar o quadro, servindo apenas para mascarar a situação. Só que curiosamente o déficit de qualidade não afeta somente os beneficiários dessas medidas afirmativas. Há um verdadeiro contingente que chega à graduação, não só oriundo da escola pública, sem ter sequer a mínima condição de permanecer na universidade, muitas vezes fazendo-o apenas devido ao frágil processo de avaliação a que é submetido. Creio que medidas pontuais não serão o bastante para a neutralização do problema, mas poderia ser uma boa alternativa se começássemos a tratar as pessoas com maior respeito por sua dignidade, o que certamente não acontece quando se converte um adulto de quase trinta anos em "jovem" ou um de virtualmente dezoito, em "adolescente" - como o governo tem feito. Nossos pais e avós possivelmente tenham cometido excessos em nossa educação e formação, já que trabalharam com os recursos que tinham recebido. Entretanto a superproteção dispensada às gerações subsequentes acabaram tendo um efeito pernicioso: temos visto nossos jovens privados do direito de amadurecer. Considerando que o adulto tardio, se é que, de fato, alcançará a maturidade em plenitude, é o mesmo que atuará na formação dos que chegam aos bancos acadêmicos, o circo está completo. Não há exame de avaliação que conseguirá mudar isto, nem pesquisa nacional ou internacional - só a maquiagem de indicadores. Quem perde com este pastelão? Bem, além do próprio sujeito, que não terá como recuperar o tempo perdido, toda a sociedade, visto que estará privada de cidadãos e profissionais de primeira linha. Depois não adianta choramingar por quase ninguém ter real interesse no bem comum.



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